Quem acompanha o Instagram de psicologia, coaching e formação humana no Brasil dos últimos cinco anos viu a palavra ancestralidade migrar do terreiro para o funil de vendas. Não é, por si, um problema. O problema é que, no meio da explosão de cursos voltados para gente preta, cresceu também a oferta de produtos rasos, caros e desenhados mais para tranquilizar a branquitude aliada do que para instrumentalizar o cotidiano preto. Aqui você não precisa fingir que isso não acontece. A gente sabe o quanto custa apostar errado.
Curso bom forma. Curso ruim só performa.
O boom tem endereço
Entre 2018 e 2024, o Brasil viveu uma onda de cursos sobre identidade negra, letramento racial, empreendedorismo preto, cura ancestral, maternidade preta, masculinidade negra. Muita coisa boa apareceu nesse ciclo. O curso de Letramento Racial criado por Djamila Ribeiro, na plataforma Feminismos Plurais, formou toda uma geração de leitura mais sofisticada. Cursos de iniciativas como o Instituto Identidades do Brasil, o Afrolab (programa de formação ligado ao Instituto Feira Preta e ao PretaHub) e a Casa Sueli Carneiro construíram bases técnicas que dez anos antes não existiam fora da pós-graduação.
Ao mesmo tempo, pipocou um mercado paralelo de cursos genéricos repaginados com estética afrocentrada. Mentorias sem ementa clara, imersões caríssimas prometendo reconexão com a ancestralidade em três encontros, pacotes de coaching com verniz racial. O perigo aqui não é moral, é prático: quem investe o pouco que tem sai com menos ferramenta do que entrou.
A indústria da esperança
Vale entender de onde vem essa lógica. O mercado de coaches, mentorias e certificações cresceu de forma vertiginosa na última década. A própria International Coaching Federation registrou, em estudo divulgado em 2023, mais de 100 mil profissionais de coaching no mundo, com forte expansão na América Latina. Junto vieram nomenclaturas híbridas que misturam vocabulário científico com autoajuda. O Conselho Federal de Psicologia já se pronunciou, em nota orientativa sobre coaching, alertando que se trata de prática não regulamentada, sem código de ética próprio nem fiscalização, e que muitas dessas denominações se apropriam de conceitos científicos sem o respaldo correspondente. A lógica de fundo é a de uma indústria da esperança, que comercializa a narrativa de que o fracasso é sempre individual e a transformação é sempre possível mediante esforço e método. A raiz está na autoajuda importada, vendida sem as mediações que um contexto de desigualdade estrutural como o brasileiro exige. O problema é que esse mercado carece de regulação, e o vácuo legal permite que qualquer pessoa se autointitule especialista em desenvolvimento humano.
O problema se agrava quando essa retórica chega ao público preto com a promessa de prosperidade. A fórmula da merecida abundância atribui à mentalidade de quem ouve a responsabilidade por aquilo que é, em substância, efeito de estrutura. Cobrar caro por um curso de mindset empreendedor de uma população que enfrenta menor acesso a crédito, maior exposição ao desemprego estrutural e mercados de trabalho com viés racial explícito é, no mínimo, irresponsável. No pior dos casos, é um dispositivo de extração que lucra com a vulnerabilidade.
Desenvolvimento pessoal não é terapia
Essa distinção precisa ficar nítida. Curso de desenvolvimento pessoal, por melhor que seja, não substitui processo terapêutico, nem atendimento psiquiátrico, nem rede de apoio real. O marketing tende a borrar essas fronteiras porque vender transformação existencial é mais lucrativo que vender conhecimento específico. Um curso bom ensina algo concreto, uma prática, um conceito, uma lente de leitura. Um curso problemático promete virar a chave, destravar o potencial, curar feridas ancestrais em quatro módulos.
Lélia Gonzalez, com sua noção de Améfrica Ladina, nos lembra que a formação intelectual de gente preta precisa ser, ao mesmo tempo, rigorosa e enraizada. Rigor aqui significa resistir ao atalho fácil. Enraizamento significa recusar o modelo de self-help branco maquiado de axé. Bom desenvolvimento pessoal preto combina leitura séria, prática reflexiva e comunidade, não fórmula mágica.
O que procurar num curso
Antes de pagar, vale uma análise fria. Quem assina a formação, o que essa equipe publicou, onde ensina fora daquele curso. Existe ementa pública, bibliografia, carga horária definida? O curso gera alguma produção, algum exercício, alguma avaliação, ou é só consumo passivo de lives motivacionais? O valor cobrado tem alguma relação com o conteúdo entregue, ou é preço de grife?
Formações em relações raciais ofertadas por instituições como o Instituto AMMA Psique e Negritude, o Instituto Identidades do Brasil e cursos universitários de extensão (universidades públicas como a UFBA e a UNILAB mantêm programas nessa área) costumam ter ementa clara, corpo docente com trajetória verificável e preço proporcional. Esse já é um bom filtro inicial. Há também quem parta de outra premissa desde a raiz. A Feira Preta, fundada por Adriana Barbosa em 2002 e hoje a maior feira de cultura negra da América Latina, e o PretaHub trabalham pelo fortalecimento de redes e pela criação de mercado efetivo, não pela promessa de transformação individual. Pesquisadoras como Cida Bento, do CEERT e autora de O pacto da branquitude, e Lia Schucman, referência nos estudos sobre branquitude, começam pelo diagnóstico antes da prescrição: o problema não está na pessoa preta, está na estrutura que a recebe.
Montando sua trilha
Em vez de consumir cursos soltos, ajuda pensar em trilha: três, quatro formações conectadas que conversem entre si ao longo de um ou dois anos. Começar por uma base sólida de pensamento negro brasileiro, depois avançar para um recorte específico (saúde mental, educação, economia, arte) e, por fim, alguma prática comunitária ou aplicada. Essa sequência previne o efeito colecionador de certificado que não vira nada.
- Prefira cursos com bibliografia aberta, equipe formadora com produção pública verificável e avaliação ao final.
- Desconfie de promessas de transformação acelerada e de preços desproporcionais ao conteúdo descrito.
- Cheque extensões universitárias e cursos de instituições como Casa Sueli Carneiro, AMMA e Afrolab antes de apostar em mentoria privada.
Formar-se é outra forma de cuidar. Gastar dinheiro curto em curso ruim é o tipo de dano que a gente subestima porque não sangra. Escolher bem o que estudar, com quem e por quê, isso também é, no fim, higiene mental. E aqui você não precisa decidir sozinho na escuridão. A pergunta certa antes de cada matrícula já é metade do caminho.
Este é um conteúdo educativo e não substitui o atendimento psicológico individual. Curso de desenvolvimento pessoal não é processo terapêutico. Se você atravessa um sofrimento que pesa no dia a dia, procurar uma psicóloga ou um psicólogo é um passo de cuidado, não de fraqueza.