Ensaio · Saúde mental

Burnout em ativistas: quando a luta adoece

O movimento preto tem um problema que ninguém gosta de dizer em assembleia: ele está queimando quem milita com mais lucidez, e chama isso de compromisso com a causa.

Tempo de leitura7 min
Publicadomai 2026
CadernoSaúde mental

Aos 19 anos, ela entrou na coletiva da universidade. Aos 32, virou referência nacional. Tem tese, palestra em três estados por mês, coordena projeto, responde a jornalista, acolhe quem chega em crise, cuida da mãe, organiza a quermesse do coletivo. Há seis meses não dorme direito. Há dois anos não tira férias. Na última reunião, travou no meio da fala e chorou sem saber por quê. Ninguém disse a palavra burnout. Disseram que ela "estava um pouco sensível".

Quem cuida da luta também adoece.

A cultura do sacrifício

O movimento negro brasileiro herdou, por razões históricas, uma ética do sacrifício que confunde militância com martírio. Quem recua para se cuidar ouve que está aburguesado, que traiu, que não entendeu a urgência. A urgência existe. Gente preta morre todo dia no país, e isso não é figura de linguagem. Mas a conta que diz "se eu parar, morrem mais" é falsa na matemática e devastadora na psique. Quem milita exausto não salva ninguém. Quem milita até o colapso, muito menos.

Herbert Freudenberger nomeou o burnout em 1974, no artigo "Staff Burn-Out" da Journal of Social Issues, a partir do que observou, não por acaso, em quem trabalhava como voluntário numa clínica popular. A síndrome tem três eixos: exaustão emocional, despersonalização (a pessoa passa a tratar quem está na frente como caso) e perda da sensação de realização. Quando isso alcança quem milita na causa preta, uma quarta camada se acrescenta: a culpa por adoecer numa luta em que os outros, aparentemente, aguentam.

O mito de que os outros aguentam

Os outros não aguentam. Estão só disfarçando melhor, ou já saíram de cena sem explicação, ou vão cair na próxima curva. Arline Geronimus descreve como o desgaste de viver sob racismo, o weathering, vai corroendo o corpo ao longo do tempo e elevando a carga alostática, o acúmulo de "tempo e desgaste" sobre o organismo. Somar a militância antirracista a essa base cria uma carga dupla. E o eixo do estresse, o HPA, não escolhe a origem: a literatura mostra que fontes diferentes de estresse crônico produzem padrões parecidos de desregulação do cortisol. Para o corpo, o estresse do racismo vivido e o estresse de combater o racismo cobram, em boa parte, da mesma conta.

Angela Davis defende que o autocuidado faz parte das lutas por justiça social, não é pausa da luta. A ideia virou meme e, como todo meme, perdeu o contexto. O que estava em jogo é simples: movimento que não cuida de quem o sustenta reproduz por dentro a mesma lógica extrativista que diz combater. É o patrão instalado dentro do coletivo.

A diferença entre cansaço e adoecimento

Militância cansa. Faz parte da natureza do trabalho. O problema não é o cansaço, é o cansaço que já virou outra coisa: insônia que não passa, cinismo, perda de sentido, o corpo somatizando o que a boca não diz. A linha é fina e costuma ser cruzada sem aviso. Quando alguém começa a pensar "não suporto mais essa gente" sobre quem caminha do lado, ou quando a pauta que antes mobilizava vira peso morto, o ponto já ficou para trás.

Isildinha Baptista Nogueira, em A Cor do Inconsciente: significações do corpo negro, mostra que o corpo preto carrega marcações próprias inscritas por uma sociedade racista, e que essas marcações pedem leitura própria. Quem está em burnout na causa preta precisa de cuidado específico. Não basta "tirar férias", porque o sistema ao qual a pessoa volta é o mesmo que adoeceu. Sem reorganizar a carga, a pausa vira só combustível para a próxima queima. Audre Lorde já tinha escrito sobre isso em A Burst of Light (1988), quando dizia que cuidar de si não é indulgência, é autopreservação, e que isso é um ato de guerra política. A frase virou slogan, mas nasceu de exaustão concreta, escrita num diário de doença.

Falar do racismo também fere

Há um custo que raramente entra na conta: nomear o racismo reabre o racismo. Grada Kilomba descreve, em Memórias da Plantação, como falar do racismo reativa o trauma, porque relembrar e articular a experiência fazem a ferida voltar a doer. Para quem faz isso em entrevistas, audiências e plenárias, semana após semana, não existe separação entre o trabalho e o trauma. A pessoa está sempre ao vivo. E o que deveria ser descanso vira culpa, porque desligar parece abandonar a causa.

Como o movimento pode parar de queimar a própria gente

Isso não é falha individual de quem adoece. É questão de organização de quem estrutura a militância. Alguns gestos que coletivos sérios já começam a fazer:

  • Rotatividade real de liderança, com transição planejada, para não depender para sempre das mesmas três pessoas até que caiam.
  • Limite claro de carga para quem ocupa função de referência, inclusive o direito de não responder mensagem à meia-noite sem ser acusado de desligamento da causa.
  • Fundo coletivo de terapia, descanso e saúde, tratando cuidado como infraestrutura política e não como luxo pessoal. Já existem no país coletivos e grupos de apoio voltados à saúde mental de quem milita, alguns gratuitos, como a Margens Clínicas, em São Paulo, que atende ativistas e movimentos sociais. A rede ainda é desigual entre as capitais, mas começa a existir.

Recuar para se cuidar não é desertar. Quem para, quem se afasta, não traiu a causa. Às vezes é o único gesto honesto que restou. A luta antirracista é longa, e não vai ser vencida por quem morrer primeiro. Vai ser vencida, se for, por quem aprender a durar. Durar não é menos radical. É a única radicalidade que o tempo respeita.

Se você se reconheceu neste texto e está sofrendo, procurar ajuda também é parte da luta. Uma psicóloga ou um psicólogo pode acompanhar esse processo com você. Em momentos de crise ou sofrimento intenso, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende de graça, em sigilo, 24 horas, pelo número 188 e pelo site cvv.org.br.

Este texto tem caráter educativo e não substitui o atendimento psicológico individual. Cada história pede escuta própria.

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A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.