Ensaio · Neurociência

Sistema nervoso e reações ao racismo

O susto que a pessoa preta sente no elevador não é fraqueza emocional. É um sistema nervoso operando exatamente como a biologia determinou, e como o Brasil treinou.

Tempo de leitura7 min
Publicadojan 2025
CadernoNeurociência

Uma cena banal: você entra no elevador, uma senhora branca aperta a bolsa contra o corpo, e seu peito dispara. Quando chega ao andar, o coração ainda leva um tempo para voltar ao ritmo. A conversa pública sobre racismo quase nunca desce a esse nível, o do pulso, da respiração, do suor que aparece sem permissão. É aí, porém, que o racismo faz o trabalho mais íntimo. Ele mora no sistema nervoso autônomo antes de morar em qualquer discurso.

O sistema nervoso autônomo tem dois ramos principais. O simpático mobiliza energia para reagir, o que se chama de luta ou fuga. O parassimpático cuida do repouso e da recuperação. Quando o corpo lê perigo, o ramo simpático aciona uma cascata hormonal de adrenalina e cortisol. Diante de uma ameaça pontual, isso é adaptativo e salva. O problema nunca esteve na resposta aguda. Está na cronicidade, no alerta que não desliga.

A teoria polivagal, em português claro

Stephen Porges propôs, nos anos 1990, que o nervo vago tem mais de um ramo, e que cada ramo sustenta um modo de responder ao mundo. Simplificando com honestidade: existe o modo de engajamento social, quando o sistema lê segurança e a pessoa conversa, sorri, aprende, ama. Existe o modo de luta ou fuga, quando o sistema lê perigo e mobiliza energia. E existe o modo de imobilização, quando o perigo parece inescapável e o corpo congela, desliga, dissocia. Vale a ressalva: a teoria ganhou enorme circulação clínica, mas a divisão funcional do nervo vago não é consenso na neurociência básica. O modelo é útil como mapa, desde que não se apresente como mais certeza do que a evidência sustenta.

O racismo brasileiro opera nos três registros. Produz engajamento performático, o sorriso ensaiado quando a segurança te aborda. Produz mobilização crônica, o coração que não desacelera no fim do expediente. E produz imobilização silenciosa, o instante em que a ofensa chega e a resposta não vem, como se a pessoa tivesse saído do próprio corpo. Nada disso é fraqueza de caráter. É neurofisiologia funcionando.

O mito do exagero

Um argumento recorrente de quem nega o racismo é dizer que a pessoa preta exagera, está paranoica, vê racismo onde não tem. A neurociência do trauma desmonta isso com paciência. Pesquisas de Bessel van der Kolk e Bruce Perry indicam que um sistema nervoso exposto de forma repetida a micro e macroagressões desenvolve um detector de ameaça mais sensível, não por vontade, por economia evolutiva. Mais vale reagir a dez ameaças falsas do que perder a verdadeira.

Ou seja: o que se rotula de paranoia é a precisão de um corpo preto lendo um ambiente que, estatística e historicamente, já provou ser perigoso. A falha de percepção está do outro lado, no sistema que se dá ao luxo de não registrar o que não o afeta. O privilégio racial, em termos neurológicos, é o direito de manter um sistema nervoso menos calibrado para a ameaça.

Quando o alerta não desliga

O problema não é que o sistema reaja. É que ele não retorna ao modo de engajamento. A epidemiologista Arline Geronimus chamou de weathering o desgaste biológico de viver sob racismo crônico, e descreveu marcadores de envelhecimento acelerado em pessoas negras que não se explicam por genética. O neuroendocrinologista Bruce McEwen deu nome ao mecanismo: a carga alostática, o custo que se acumula quando o corpo precisa se readaptar sem trégua. A exposição contínua à discriminação aparece associada a marcadores de inflamação, pressão alta, distúrbios do sono e síndromes metabólicas. A literatura associada ao weathering sugere que mulheres negras podem apresentar, na meia-idade, telômeros mais curtos do que brancas da mesma idade, um padrão que o nível socioeconômico sozinho não explica, ainda que a evidência sobre telômeros e raça seja complexa e não unânime. Estudos de David Chae, por sua vez, ligaram a internalização do racismo ao encurtamento telomérico em homens negros. A hipótese estrutural ganha força quando o trabalho comparativo internacional de Richard Cooper mostra que populações africanas no continente têm taxas de hipertensão mais baixas do que as de brancos ocidentais, o que enfraquece a explicação puramente genética.

A clínica informada pela teoria polivagal observa que muita gente preta nunca conheceu, como estado de base, o modo de segurança. Cresceu em alerta, amadureceu em alerta, envelhece em alerta. Quando chega à terapia, às vezes a tarefa inicial não é falar do trauma, é ensinar o sistema nervoso a reconhecer como se sente ficar em calma, para que exista um ponto de referência. O descanso, para corpos pretos, muitas vezes precisa ser aprendido. Resmaa Menakem, em My Grandmother's Hands (2017), traduziu parte dessa leitura para uma linguagem acessível, centrando o corpo preto sob racismo histórico. A contribuição é real, e a ressalva também: às vezes o livro generaliza mecanismos além do que a evidência permite. Reconhecer que o corpo carrega história com substrato neurofisiológico é potente, desde que se distinga o que a ciência já demonstrou do que ainda é hipótese.

O que fazer com essa leitura

A neurociência do sistema autônomo não resolve o racismo. Ele é estrutural e exige política. Mas oferece um mapa para quem carrega o peso no corpo. Três caminhos que não são salvação, são suporte:

  • Reconhecer o próprio estado ao longo do dia, perceber quando o corpo está em engajamento, em mobilização ou em congelamento, sem julgamento.
  • Criar âncoras de segurança, pessoas, músicas, lugares, práticas religiosas ou corporais que religuem o modo de engajamento, mesmo por minutos.
  • Buscar terapias que trabalhem o corpo, não só a fala: abordagens somáticas, EMDR, escuta informada pela teoria polivagal, porque o trauma racial foi escrito em camadas anteriores à palavra.

O corpo preto é narrador fiel.

Nomear o que o sistema nervoso faz não cura o país. Mas tira de quem é preto o peso de achar que o problema é ele mesmo. Em vez de carregar a ficha de frágil, instável, gente que exagera, reconhecer o próprio corpo como narrador fiel de uma violência que o Brasil prefere não ver já é, em si, um ato de dignidade.

Este texto tem caráter educativo e não substitui acompanhamento psicológico individual. Se o peso do racismo no corpo está pesado demais, procurar uma psicóloga ou um psicólogo faz diferença. Em momentos de sofrimento intenso, o CVV atende de graça e em sigilo pelo telefone 188, 24 horas por dia.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.