Relato · Histórias

Lições aprendidas com ancestrais

Tem memória que mora na carne, não na cabeça.

Tempo de leitura6 min
Publicadojan 2024
CadernoHistórias

Dalva tinha quarenta e três anos quando entendeu que as mãos dela faziam coisas que a cabeça não mandava. Estava passando ferro numa camisa de linho, a camisa branca do filho mais novo, que ia se formar naquele sábado, e percebeu que os pulsos dobravam o tecido de um jeito que ela nunca tinha aprendido: pressionavam a manga pela costura interna, viravam num ângulo preciso, depois deslizavam para baixo com o ferro inclinado. Parou. Olhou para as próprias mãos como quem encontra um objeto esquecido dentro de uma gaveta. Não era dela esse gesto. Era da vó Cida.

A vó Cida tinha morrido em 1998, num quarto de quatro metros no Glicério, em São Paulo. Veio da Bahia em 1952, com dezoito anos e uma trouxa amarrada em pano de chita. Nunca contou exatamente de onde. Dizia "do interior" com aquela voz que fechava o assunto. Trabalhou a vida toda em casa de família em Perdizes, com folga às quintas e no domingo à tarde. Criou a filha Nilza, que criou a Dalva, que criou as duas crianças no apartamento do Ipiranga onde agora o ferro a vapor soltava um ruído de trem lento.

Dalva não tinha lembrança de ter visto a vó Cida passar roupa. Era pequena demais quando a vó ainda estava bem, e depois a vó adoeceu. Mas alguma coisa ficou. Não nas palavras, porque a vó falava pouco, ensinava por presença. Por dobrar o joelho direito quando ficava muito tempo em pé. Por esfregar limão no pescoço antes de dormir. Por chamar a chuva de "bênção" com uma seriedade que não era religiosa, era outra coisa, mais antiga. Dalva não sabia o nome dessa coisa. As mãos sabiam.

Três semanas depois da formatura, Dalva encontrou no alto do armário uma caixa de papelão que a mãe tinha deixado quando morreu. Nilza tinha partido em 2019, de pneumonia, e Dalva tinha fechado a caixa sem abrir porque não aguentava. Agora abriu.

Tinha dentro: uma foto em preto e branco, desbotada nas bordas. Uma mulher de costas, quase de costas, segurando alguma coisa na mão direita, parecia um pano. Quintal ao fundo, pé de mamona, cerca de bambu. No verso, escrito a lápis com letra desconhecida: Benedita. Cachoeira, 1938.

Benedita. Dalva nunca tinha ouvido esse nome na família. Ficou olhando para as costas daquela mulher. A postura ereta, ombros levemente inclinados, o braço direito levantado num ângulo que Dalva reconheceu, como quem passa ferro. Tinha também na caixa: um terço sem cruz, só as contas, de madeira escurecida. Um caderninho com receita de aluá em três linhas (milho, gengibre, açúcar, fermentar três dias na sombra) e o resto das páginas em branco. Um pedaço de tecido azul-escuro, xadrezinho miúdo, bordas em franja deliberada.

Dalva buscou no telefone: Cachoeira, no Recôncavo Baiano, às margens do Paraguaçu, conhecida pela renda e pelo candomblé. Benedita podia ter aprendido a engomar linho lá, num tempo em que engomar era ofício de mãos pretas para corpo de gente branca, e ainda assim era saber, técnica, inteligência do corpo que passava de mãe para filha sem precisar de palavras.

A vó Cida tinha nascido em 1934. Em 1938 tinha quatro anos. Podia estar naquela foto, pequena demais para aparecer, olhando as costas de Benedita erguendo o pano, aprendendo sem saber que aprendia. E depois atravessou oitocentos quilômetros, instalou-se no Glicério, teve a filha Nilza, e deixou dentro dela uma forma de dobrar o joelho, de chamar a chuva, de passar ferro, que não precisava ser ensinada porque já estava na carne. A Nilza deixou dentro da Dalva. A Dalva não sabia que carregava até aquela manhã em que os pulsos fizeram o que faziam sem precisar de ordem.

Dalva guardou a foto de Benedita na carteira, atrás do cartão do plano de saúde. O terço sem cruz foi para o bolso do casaco. O caderninho ficou na gaveta da cozinha. E o pedaço de tecido azul ela levou para a janela da sala e ficou olhando a luz atravessar o fio.

Não era relíquia. Não era símbolo. Era um pedaço de pano que alguém cortou com intenção, passou de mão em mão sem explicação, o tipo de coisa que existe porque sobreviveu, porque alguém achou que valia guardar mesmo sem saber por quê.

É isto que a ancestralidade faz com a gente quando ninguém está olhando. Ela não chega como árvore genealógica bem desenhada nem como monumento de força inquebrável. Chega como sedimento, fora de hora, no meio de uma tarefa qualquer: lavando louça, ouvindo uma música específica, passando ferro numa camisa branca. As lições mais fundas não vêm em forma de conselho. Vêm em forma de gesto que o corpo já sabe antes da cabeça entender. Ancestralidade não é passado guardado. É método que continua trabalhando na pessoa.

Dalva colocou o pano azul na janela e voltou à camisa pela metade. Os pulsos fizeram o gesto. A manga dobrou no ângulo preciso. O ferro desceu inclinado.

Lá fora, sobre o Ipiranga, começou a chover.

Este é um conteúdo educativo e literário. Não substitui acompanhamento psicológico individual. Se o luto, a memória da família ou questões emocionais estiverem pesando, vale procurar uma psicóloga ou um psicólogo. Em momentos de sofrimento intenso, o CVV atende pelo 188, 24 horas, de forma gratuita e sigilosa.

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