Ensaio · Antirracismo

Ativismo digital e suas limitacoes

O quadradinho preto no feed não derruba cerca de condomínio. E, mesmo assim, a gente segue tratando o gesto como se fosse a coisa toda, quando é, no máximo, a sombra dela.

Tempo de leitura6 min
Publicadojan 2025
CadernoAntirracismo

Junho de 2020. No dia 2, batizado de Blackout Tuesday, o Instagram virou um velório de quadrados pretos em questão de horas, no rastro dos protestos pela morte de George Floyd. Muita gente que nunca tinha dito a palavra racismo em voz alta descobriu a hashtag. Anos depois, os mesmos perfis postam carrossel sobre letramento racial e seguem contratando faxina sem carteira assinada. Alguma coisa no meio do caminho se perdeu. Talvez nunca tenha estado ali.

A estética aprendeu a imitar a política.

Quando o gesto vira decoração

O ativismo digital prometeu democratizar a pauta, e em parte cumpriu: tirou o debate racial da academia e colocou no feed de quem faz unha, de quem entrega comida, da sobrinha de catorze anos. Isso não é pouco. Lélia Gonzalez, viva hoje, provavelmente teria um canal e faria multidão. O problema não é a ferramenta. É o que o algoritmo faz com ela.

Porque a plataforma premia o que performa, não o que transforma. Um vídeo de quinze segundos sobre racismo estrutural viraliza; um relatório sobre encarceramento em massa morre com duzentas curtidas. A engenharia da atenção reduz a crítica a bordão, e o bordão, repetido, vira enfeite. O racismo estrutural que Silvio Almeida descreve em Racismo Estrutural (2019) exige tempo longo; o reel exige quinze segundos. Não cabe.

A máquina que come indignação

Essa máquina tem lógica própria, e ela não é antirracista. Safiya Umoja Noble, em Algorithms of Oppression (2018), mostrou como sistemas de busca e recomendação reproduzem hierarquias raciais, não por acaso, mas por como foram projetados e alimentados. O modelo de negócio das grandes plataformas vive de engajamento. E o que maximiza engajamento é o que provoca reação visceral: indignação, escândalo, dor. Quando alguém posta sobre um episódio brutal de racismo, o algoritmo não distingue denúncia de entretenimento. Os dois alimentam o mesmo ciclo de atenção.

Daí nasce uma categoria nova de militância: a do perfil verificado que cobra cachê alto para palestrar em empresa com zero pessoas pretas na diretoria. Não é hipocrisia individual, é sintoma. O capital aprendeu rápido a embalar a pauta como nicho de mercado. Vende curso, vende camiseta, vende consultoria de diversidade. E a gente compra porque comprar é mais fácil do que mudar. Achille Mbembe, na Crítica da Razão Negra (edição brasileira de 2018), já avisava: o capital digere qualquer crítica que não toque na estrutura de propriedade.

Visibilidade também é exposição

Tem um custo que não é simbólico: é físico. Quem ganha audiência relevante relata ameaça, perseguição, campanha organizada de assédio. A exposição que a plataforma exige coloca corpos pretos em risco real, com pouca ou nenhuma proteção. A mesma visibilidade que abre porta também marca alvo.

E o engano maior é confundir a ferramenta com o projeto. Postar sobre racismo sem mexer em quem decide o orçamento da empresa, em quem está no conselho da escola, em quem manda no condomínio, é teatro. Bonito às vezes, útil às vezes, mas teatro. A militância de perfil pode cooptar liderança ao oferecer mobilidade individual e esvaziar o que era coletivo, mecânica que Jessé Souza descreve em A Elite do Atraso (2017), quando fala da classe média que opera como capataz da elite. O digital só acelerou isso: transforma quem comunica em celebridade, e a luta coletiva em conteúdo.

Mas nem tudo é vitrine

Seria desonesto dizer que não houve ganho. Mães de vítimas de violência policial organizaram redes inteiras por aplicativo de mensagem. Gente da periferia furou o cerco da grande imprensa criando mídia própria. Vaquinha bancou tratamento, advogado, enterro digno. A rede, usada como ferramenta de organização de verdade, fura bloqueio que a rua sozinha não fura. A crítica ao ativismo de baixo esforço, o chamado slacktivism que Evgeny Morozov ajudou a popularizar em The Net Delusion (2011), é justa, mas não pode virar régua para deslegitimar quem participa com o que tem. Quem compartilha uma convocação no intervalo do almoço não está fazendo política menor.

O que sobra depois do scroll

A pergunta honesta é: o que da sua vida material mudou desde que você começou a repostar conteúdo antirracista? Se a resposta for nada, o problema não é seu, é do formato. Mas ficar no formato também é uma escolha. Algumas saídas concretas:

  • Migrar do post para o bolso: bancar todo mês uma organização preta de base, não um perfil influente.
  • Usar o capital de rede para furar porta fechada: indicar gente preta para vaga, abrir edital, ceder palco.
  • Aceitar o tédio da política lenta, reunião de conselho, associação de bairro, sindicato, que o algoritmo nunca vai premiar.

A revolução não vai ser stories. Nunca foi. O que o digital pode fazer é juntar gente que, depois, desliga o celular e aparece. Se não aparece, o quadradinho preto foi só mais um filtro. E filtro, a gente sabe, some quando a luz muda.

Este é um texto educativo e de reflexão coletiva; não substitui acompanhamento psicológico individual. A exposição em rede e o peso do racismo cobram um preço emocional real. Se você está em sofrimento, procurar uma psicóloga ou um psicólogo faz diferença. Em momentos de crise, o CVV atende pelo 188, ligação gratuita, 24 horas.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.