Ensaio · Antirracismo

Construindo alianças antirracistas autênticas

Aliança de verdade não pede certificado.

Tempo de leitura7 min
Publicadojan 2025
CadernoAntirracismo

Uma pessoa branca, amiga de longa data, ligou outro dia angustiada, perguntando se tinha feito certo ao interromper uma piada racista no churrasco da família. A pergunta já denunciava o problema: queria nota, queria a confirmação de estar do lado certo. A resposta foi sim, fez certo. Mas a cobrança de elogio é exatamente o tipo de coisa que torna a aliança branca tão cansativa para quem é preto. Aparecer no velório, bancar o advogado, perder amizade branca no grupo da faculdade e não postar sobre nenhuma dessas coisas: é disso que se trata. O resto é vitrine.

O mercado da boa consciência

Virou moda, nos últimos anos, quem é branco e de classe média declarar-se aliado antirracista como quem declara dieta. Faz curso, lê Djamila, compartilha bell hooks no grupo do trabalho. Nada disso é ruim em si. O problema começa quando a aliança vira identidade, quando a pessoa branca precisa ser reconhecida como aliada para existir, e essa necessidade acaba pesando mais do que a causa.

Existe um momento preciso em que a palavra perde o nervo. Com aliança, esse momento pode ser datado: quando a categoria migrou da descrição de uma prática para a descrição de uma identidade, de algo que alguém faz a custo real para algo que alguém é e exibe. Angela Davis insiste há tempos que solidariedade não é caridade: a libertação é mútua ou não é. Quando a pessoa branca se aproxima da pauta buscando absolvição, não está em aliança, está em terapia de graça, usando corpo preto como divã. No espírito do que Audre Lorde escreveu em Sister Outsider (1984), uma solidariedade que não custa nada tende a ser conforto disfarçado de política. Quem chora mais do que a vítima, quem precisa ser consolado pelo constrangimento de ter presenciado racismo, inverte a rota do cuidado e cobra da gente preta o trabalho de aplacar culpa branca.

Aliança não é plateia

A confusão mais comum é achar que aliar-se significa amplificar. Amplificar voz preta importa, sim, mas só quando a voz preta pediu. Quem reposta a esmo, quem marca a amiga preta em todo debate racial como se fosse obrigação dela explicar, quem convoca o colega negro para falar de cota numa reunião sobre logística: esse não ajuda, terceiriza. James Baldwin, na conversa com Margaret Mead publicada em A Rap on Race (1971), insistiu na distinção entre culpa e responsabilidade: o problema não está só na má-fé de quem é branco e bem-intencionado, mas na frequência com que essa pessoa precisa que a luta alheia a redima. Nessa torção, quem sofre a opressão vira instrumento da salvação de outra pessoa.

O trabalho de aliança autêntica é, na maior parte do tempo, silencioso e constrangedor. É chamar a atenção do primo no almoço de domingo, sabendo que vai sobrar. É perguntar por que o departamento só tem uma pessoa preta. É abrir mão de oportunidade quando ela vem manchada, inclusive das oportunidades em que a presença preta serve de verniz. Florestan Fernandes, em A Integração do Negro na Sociedade de Classes (tese de 1964, publicada em 1965), desnudou o mito da democracia racial quando isso era academicamente impopular, somando-se ao trabalho que Abdias Nascimento já vinha fazendo desde os anos 1940 com o Teatro Experimental do Negro, e perdeu conforto institucional sem ganhar protagonismo racial.

Confiança se constrói na rotina, não no discurso

Nenhuma aliança séria se forma em workshop de dois dias. Ela se constrói ao longo de anos, com gente que aparece quando ninguém está olhando. Quem banca o aluguel da amiga preta desempregada sem postar sobre isso. O colega que cede crédito num artigo científico. A vizinha branca que, quando a polícia aborda o vizinho preto na portaria, desce de chinelo e fica filmando até a viatura ir embora. Lélia Gonzalez mostrou como o feminismo branco dos anos 1970 e 1980 incorporou mulheres negras na retórica da sororidade enquanto as excluía das decisões, das publicações, dos palcos: dizia-se aliado e reproduzia a hierarquia que alegava combater.

Há também o problema de quem vira aliado-protagonista, a pessoa branca que, ao engajar com a pauta racial, acaba ocupando o centro dela, porque o mercado cultural reconhece mais o esforço de quem saiu da bolha do que a expertise de quem vive e teoriza o racismo há décadas. Abdias Nascimento denunciou ao longo da vida como a branquitude funciona feito filtro, decidindo quais vozes negras chegam ao público e sob qual enquadramento. Kabengele Munanga insiste há décadas que o Brasil precisa passar da retórica da mestiçagem para a prática da reparação. Reparação não é simbólica, é material. E é na materialidade que a aliança se testa: divide herança, cede espaço, perde privilégio concreto. Se não custa nada, provavelmente não é aliança, é filantropia emocional com roupa de política.

O que pedir, o que recusar

Gente preta também tem responsabilidade nessa conversa: parar de agradecer migalha, parar de bajular quem é branco e faz o mínimo, parar de usar a figura do aliado como prova de valor social. Alguns critérios práticos para separar joio de trigo:

  • Quem precisa ser elogiado a cada gesto não está em aliança, está pedindo estrelinha como criança.
  • Quem some assim que a pauta esfria no feed nunca esteve de verdade na pauta.
  • Quem aceita ouvir crítica sem chorar, sem se vitimizar, sem ameaçar romper, esse tem chance de durar.

A aliança antirracista que interessa é a que sobrevive ao tédio, à briga de família, à perda de prestígio. Não é amizade bonita para foto. É pacto de longo prazo entre gente que sabe que, no fim, ninguém se salva sozinho, e que salvar-se junto exige abrir mão de muito mais do que um post no domingo.

Este é um texto de reflexão, não substitui o acompanhamento psicológico individual. Carregar o peso do racismo cansa, e procurar uma psicóloga ou um psicólogo pode ajudar a sustentar esse cansaço. Se a dor estiver insuportável, o CVV atende pelo 188, 24 horas, de forma gratuita e sigilosa.

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